Quem sou eu

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Professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Teoria da Literatura (PUCRS/2008). Especialista em Assessoria Linguística (FAPA/2011), Literatura Brasileira (PUCRS/2005) e Infanto-Juvenil (PUCRS/2006). Graduado em Letras (Unilasalle/2004). Blogueiro, leitor, gamer, aspirante a diretor de ópera, adorador de Heavy Metal, do Internacional.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Vendetta

Acordei de um sono profundo.
O dia clareia através da aurora,
Mas preciso saber quem sou novamente.

Você já ouviu falar de mim?
Um anjo caído que não restou em marfim?

Distante, notei as agrúrias da vida.
Próximo, continuo vendo dor - inocência perdida!
Agora retorno, crente de meus poderes.

Se não ouviu falar em mim, agora ouvirá!
Se já sabes o meu fim, meu recomeço saberá!

Empunho minhas armas, eterno sou.
Febre por vingança, alma não mais terei.
Resta-me um corpo, firme e ávido pela justiça.

Se tens ideia do que fiz, podes lamentar.
Se não julgas nem escutas, hei de o futuro forjar!

Concluo o objetivo de minha missão apenas com o que possuo.
Não saberia proceder diferentemente da forma como suo.
Afinal, há muito a se resolver num espaço de tempo escuro.

Minha vingança completa,
É dessa vida que me leva,
Deste sol que me projeta
Raios solares de trevas!

- O corpo da terra saiu.
Brotou, cresceu e viveu
Para a vida eterna, adiante,
E só lhe resta o ultrajante

Sentido de vingança.
De morte.
Consorte.
Ao norte.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ida sem bagagem

Sinto que o corpo queima cada vez mais.
Sei que um minuto passa e já não posso mais
Te ver. Sentir o teu abraço ou o fruto do carinho.

Já não vez, adorada, que o tempo passa?
Não percebes que um cálido vento nos enlaça?

De ti, percebo somente essa inconstância -
Maldita quimera que me fazes passar!
Sou de um lado frio e de outro também - leve calar!

Já não sentes, adorada, que é hora de partir?
Não percebes que nem um único minuto nos faz refletir?

Sob a doce luz da lua, esbanja-se saúde e audácia.
Só não há por quem lutar ou correr como se fosse nada,
Pois cá estou, uniforme e sem valentia, para a vida esfacelada.

Já não falas, adorada, com um ser que em ti nada brota?
Não percebes a frieza e a falta de gesticular nessa rota?

Por fim, não mais aparecerei - posto em praga o corpo eterno.
Um filme que já passou, outro que nem sonhei:
Assim é nossa vida, desde o velho tempo que te cruzei.

Termino de falar, adorada, mas não sem antes de lembrar:
A consequência da vida sem te ter é a mesma que sem te amar.

Fogo

Queima no horizonte,
O absoluto desejo de viver.
Em brasas, aos montes,
A inconstância do sobreviver.

Quem disse que na calma
Apesar dos inúmeros soluços
Não avança uma simples alma
Para chegar ao fatigado consenso?

Através do fogo, da brasa,
Avança a alma pura e gentil.
Nem no meio de um milhão de rosas
Teremos uma força tão senil.

Incluiria ao poder da alma
Todo o desejo nela representado.
Igualmente à forma, espalma
A bela e lúcida morte - caso pensado.

Livre de qualquer objeção,
De qualquer fuga ou noção,
O fogo arderá como a tumba
Aos vivos, visto que retumba

Todo o desejo sofrido e real
Dos corpos que sãos sofrem
Em busca de uma arma letal
Que renasça os que lá traem.

Abrigaremos, em brasa e cinzas,
Todo o lânguido sentido, maculado
Pela dor e pelo horror às stravaganzas
Que a alma faz de pérfido cuidado.

No horizonte, então, não mais acenderão
Os pavores da multidão, grandes e vistosos:
Sobrarão as almas - ao longe renascerão
Os únicos seres que nos faltam: homens talentosos.

domingo, 9 de maio de 2010

Páginas de ilusão

Num dia, debaixo das cobertas,
O livro era sua única companhia.
Sob um frio petrificante,
Num ambiente nada eletrizante,
Seria tudo igual a uma mania
Ou ler, vontades atadas?

Pensou, debaixo do cobertor,
Chegando à conclusão que só lia
Por gosto, por querer, por prazer;
De nada adiantaria estremecer
Perante um obstáculo que cria
Paredes de rubro torpor.

Começou a ler, acobertado,
Pois o frio ainda imperava, gelado,
E sua vontade era de terminar
Aquela história - longo caminhar.
Virada a primeira página,
Leu aquilo que não era magna:

A história era sua, do ser escondido,
Do homem que vive pelo céu reluzido,
Mas que em meio às tentações,
Nada faz por si, senão imitações
Das vidas que sempre desejou e quis,
Como se assim pudesse ser feliz.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tempo de acreditar

Quando minha voz for escutada,
Sairei de meu breu eterno para a redenção.
Serei o amigo mais sincero, não o amargão,
Pois é hora de notar toda a escalada.

Quando minha voz for refletida,
Em menos tempos sairei para notar
Que toda aventura em um além-mar
Encerra-se no momento da partida.

Quando minha voz for refreada,
Sairei para explanar o que penso,
Já que de nada serve o intenso
e maledicente pavor da armada.

Quando minha voz for apagada,
Todo o mal será reluzente, mas incolor,
Pois de toda a escuridão e amargor
Ficará apenas a alma desenganada.

Sem a voz, sem a força, sem o toque.
Precisa-se de espaço para acreditar
Que todos nós somos mais para amar
E o tempo só reforça tal retoque.

Ilha bela


Em local isolado, lá ficava o elemento:
“Ser ou não ser, eis o que pensar!”
Pensara no poeta, mas não falara atento.

Isolado, perdido na ilha,
O ser lá estava, calmo a falar:
“Quero todo o mundo, até tua filha!”

Logo pensou que não deveria pedir
Nada. Seria um devaneio, calar
Seria melhor, mas resolvera atrair

A ira. Nuvens fecham, calado o tempo.
Paira A voz, sobre o luar ao mar:
“Que pedes assim, como tal elemento?”

“Quero tua filha, ó Deus!”, bradou o homem.
“Buscais por vias erradas, bravo ser,
Se quiseres além, falarás do que deve aquém.”

Silenciado o homem, repensou seus atos.
Surgiu em meio a tudo um único vulto.
A bela, a amada que desejara por retratos.

Ah, ilha bela, possuidora de alentos,
Salvaste uma alma de puros sonhos
Apenas para manter seus lineamentos.

Quem seria a partir de agora?
Que buscaria sem pedir mais nada?
Viveria apenas da grande aurora?

Respostas ninguém traria.
Nem numa passagem meramente isolada.
De resto, apenas o vento ouviria.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Um haikai

Ventos balançam as flores da estação
Inequivocadamente à beira do rio:
Quem somos, se tudo já se partiu?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A barca e a passagem

Não há tempo para esperar um novo mundo...

Seus olhos refletem na água.
Meu corpo em chamas deságua.
Tua luz em mim já não reflete
O velho mundo de festa e confete.

Que teremos se embarcamos há pouco?
Que virá senão imundas mazelas e loucos?
Oh, adorada, que em nada mais demonstra
Intenso raio de sol, que não mais me encontra.

Não há mais tempo para esperar um mundo novo...


Por entre barcas, aqui nos perguntamos:
"Ódio e Amor andarão por aqui?"
Sublime feito, imaculado registro
Responderá: "Não, não! Apenas em ti!"

Exploramos os feitos, terceiros momentos.
Esquadrias de madeira muito nobre.
"Então, seremos os novos pobres?
Teremos de burlar falsos instrumentos?"

"A música, adorada, é espírito que expande
Tudo que nos faz notar, íntegros e amantes
De sons cálidos e sentidos, criados e constantes
Da beleza que aqui nunca será revoltante!"

Não há mais tempo para esperar um mundo novo...

É só o que a voz diz: "Tempo não há!
Não há tempo! Quem sois, maldito guerreiro?
Imperas por lutar contra o precioso mosteiro,
Ígneo amante das malvadezas do que existirá!"

Tão logo a voz soou, por loucura ou descrença
Tudo se apagou. Vela, voz, velocidade intensa
Que agora permite deixar com que o céu e a terra
Terminem de sacralizar os corpos que aqui se enterra.

- Não há mais tempo para esperar um mundo novo...

domingo, 2 de maio de 2010

Decifra-me ou devoro-te

Que criatura pela manhã tem quatro pés, 
ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três? 
Ela estrangulava qualquer inábil a responder,
daí a origem do nome esfinge, que deriva do  
grego sphingo, querendo dizer estrangular.


No mais completo breu,
À luz de fantasias incomparáveis,
Lá está ele, pronto para mais um combate.
Apesar dos avanços inimagináveis,
Com brandura, calor e força,
Enfrenta sua última adversária e suas palavras ágeis.

"Esfinge és", brada o guerreiro,
"Se não me deixais passar, corto-te a cabeça!"
De repente, num lance bastante rápido,
O monstro torna, a cabeça desenlaça:
"Hás de passar, grande herói, mas não antes
De decifrar uma última e breve trapaça."

Atormentado por mais um agouro,
O herói aceita o desafio, mas suplica:
"Que seja breve, pois aqui não mais tempo
Tenho. Andes nessa provação, atípica
Para mais esta batalha de campos hostis,
Para mais uma vitória de dose única."

"Pois, então", diz a esfinge, "diga-me breve:
Que animal, quando jovem, caminho em quatro
Pés; que em idade adulta vira bípede; que,
Por fim, ao leito de morte, três pés é extrato?"
Deixa-se o herói em grande agonia, maior
Que todas as dificuldades antes houvesse ilustrado.

"Esfinge és", diz o guerreiro,
"E de nada me adianta falar! És monstro, és todo,
Lama de homem, retumbância magistral,
Mas nada há de terminar comigo, nem estrondo
De uma fala tão descomunal! Saia!"
Finaliza o combatente, sem mais qualquer lodo.

"Devoro-te, portanto", ameaça a Esfinge,
"Já que não temes o mal! Arranco-te a cabeça,
Os olhos, as entranhas, com um único toque
Desfigural. Não te disseram que esmoeça
Antes que o mal tome conta de teu ser?
Não mais serás do que folha que esvoeça!"

Pretende finalizar o guerreiro, dizendo:
"És tão pouco para bradar tanto! Num raio
De quilômetros ouvirei tua súplica ao ver-me
Demolir tua sentença, já que me contraio
Apenas para pensar em algo que já é tão óbvio:
o que queres que eu responda é homem, raio!"

E assim o guerreiro desfaz a Esfinge,
Decifrando-a em nome de um bem superior.
Bem esse que não se encontra em qualquer requinte
Senão em embevecido espaço de furor:
Um rei que nega o filho por grande medo
Terá agora de sofrer as consequências de seu pavor.

O chamado

O chamado que ouvi não tinha voz ou som.
Era um chamado inconsequente e irado.
Era o grunhir de rato que emitia, queimado,
A sensação de que nada daquilo vivido era bom.

Sentei à pedra e esperei: "Velha senhora",
Alguém me disse, "vá embora antes que
Seja tarde, tão tarde que não implora
A alma para ficar à beira de uma estandarte".

Num clima denso, nebuloso e maledicente,
Caminhei rumo ao lago, pronta a descer
Aos meus infortúnios de idosa descrente
De um mundo rodeado por doentes roer

Almas. Almas. As mais puras almas
De um planeta rico em metáforas e pouca paz.
De um ambiente nu aos espelho das palmas
Que os vencedores debocham ao gosto voraz.

Mergulho. Vou ao fundo e lá me vejo:
"Mundo, mundo, vasto mundo", diria o poeta.
"Velho mundo, outro mundo", digo e festejo,
"Nada mais tens do que ódio. Clara seleta!"

E vou ao fundo, bem distante de tudo.
Encontro aquilo que me torna finada:
"Ah, outro mundo, bem como no estudo,
Hás de me levar a outra cavalgada."

Adiante, a luz forte e intensa, de brilho único:
Radiante espaço em qualquer gentileza perdida:
Que me olhas, se em nada cri ou fora aludida?
Só me resta silenciar e crer em algo púnico.