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Professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Teoria da Literatura (PUCRS/2008). Especialista em Assessoria Linguística (FAPA/2011), Literatura Brasileira (PUCRS/2005) e Infanto-Juvenil (PUCRS/2006). Graduado em Letras (Unilasalle/2004). Blogueiro, leitor, gamer, aspirante a diretor de ópera, adorador de Heavy Metal, do Internacional.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Micro-contos do Facebook

Quem é meu contato no Facebook vem acompanhando algumas pequenas histórias que publico por lá. Agora é hora de transcrevê-las para cá, antes que sumam do histórico daquela rede... hehehe

***

1)
"Ei, veja você", disse o menino.
"O que há lá?", ela quis saber.
"É uma estrela". Apontou-a.
"Há várias estrelas lá, querido." - disse rindo.
"É... Mas aquela é tu pra mim..." - observando-a.
Ela o olha, desarmada. Pega-o pela cintura e o abraça. Sente que um brilho vindo do céu lhe faria diferença por toda a vida.
***
Na festa, ele não sabia o que dizer. Dançando, ela não sabia como se mexer. De repente, os olhares se chocaram: um brilho antes existente recende um espaço de furor no coração. Furor rubro, ensandecido, temivelmente apaixonado. Ele se levanta e vai ao seu encontro. Ela sai da pista, acelera o passo. Encontram-se: o beijo é um mero símbolo de tal sentimento. A noite finda e sua realização se concretiza. "Quem era aquela estrela mesmo?", ela questiona. "Sempre foste tu", replica.
***
Após alguns anos de casamento e uma série de brigas inconsequentes, a separação aparece. Muita tristeza no olhar dela. Um peso inconsciente na mente dele. É chegado o dia de assinarem os papéis. O cartória em sua frieza habitual. As pessoas, em meio às tarefas, vivendo seu dia-a-dia. Eles, ainda assim, rememorando seu cotidiano: café da manhã, trabalho, almoço, trabalho, janta ou cinema ou teatro ou carinho ou briga ou tesão ou qualquer atitude com noção. "A minha estrela ainda vive no céu", ele disse. "E a minha está ao meu lado", ela respondeu.
***
No dia em que agonizava, num leito recoberto de amor e toda uma vida passada, ela sentou ao seu lado. "Chegou minha hora", ele disse. "Nunca teremos hora", ela respondeu. Ele observa o sol, queimando o horizonte. Ela observa seus olhos, brilhando como naquele dia, observando a estrela. "Não partirás sem saber que sempre te amei", ela disse. "Eu sei", ele responde, "mas agora é finalmente hora de meu recomeço." Ela chora. "Vou te encontrar novamente, minha estrela".
2)
Numa noite mágica, a Lua resolve brincar com o Sol. "És tu quem deve me procurar agora", diz o Sol. "Ah, isso é fácil: és claro no meio da escuridão!" - retrucou a Lua. "Sim", pensa o Sol, "difícil é passar anos-luz fazendo com que outros se iluminem".
A Lua, percebendo a angústia solar, reflete: "Se tens essa função, imagine o quanto clarifica o que é apagado". "Da minha força brota a vida", ele diz. "Só brota vida porque tem terra para fazê-la nascer", findou ela.
O Sol, percebendo seu egoísmo, sorri: "Ilumino-te para que tu guies no meio das trevas. És meu reflexo em meio a dor". "Eu sou aquela que reflete o que é bom, mas que só irradia a quem busca o melhor. Por meio de ti". Sorriem. "Agora podemos brincar?"
3)
Quando o vulto passou novamente por suas costas, Chapeuzinho temeu pelo pior. Pensava, no entanto, que não haveria mal na floresta, já que todos os bichinhos eram encantados: os pássaros cantavam ao seu ouvido, as borboletas embelezavam sua passagem, os coelhos lhe faziam cócegas quando iam cheirar suas pernas, um esquilo ria de si no caminho. Que mal haveria na floresta? "Mamãe é exagerada", pensou consigo. "Posso andar sozinha! Sou uma menina grande", festejou.
Logo ao lado, novamente um arbusto se mexia.
4)
Já é hora de eu partir?
Já, foi o que disse minha mãe.
E se o mar for tenebroso, me assustar?
Nada pode contra ti, meu amor.
Estarei sozinho apenas.
Não enquanto tiveres este amuleto...
Minha mãe estendeu a mão. Não havia nada lá.
O que há aí?
Não vês?
Olhei fundo em sua palma. As marcas do tempo, já dispostas, contrapunham-se às doces palavras. O veneno da idade já trazia resquícios de perda à vista. Ainda assim, naquela palma seca e detalhada, havia a forma de um berço.
É pra eu me deitar?
Não, ela respondeu sorrindo. É para tu lembrares que sempre terás para onde retornar..
5)
"How can you 'just be yourself', when you don't know who you are?" (Song Of Me, do Nightwish)

As ruas da cidade estão silenciosas. Poucas almas circulam pelo espaço pueril de um local putrefado pelo tempo. Observa o lado e não vê ninguém. Volve, vira-se ao outro - menos ainda. A sua frente luzes parcas iluminam o caminho. Lampiões de um século ultrapassado, que resiste ao avanço do tempo. O som consome o transeunte: nada acompanhado de tom algum. Um cão levanta uma orelha, deitado ao canto de uma quadra. Um mendigo dorme em meio aos passos da madrugada. E ele, como num lapso de dor, percebe o rosto dela invadindo sua mente: "eu não posso ser o que tu desejas". Nem ele poderia ser o que desejava.
6)
Paro em frente à caixinha de música. Num ritmo lento e descompassado, a bailarina perde a linha e cai no vão das pequenas jóias. Vejo minha filha em queda na apresentação da dança. Escorre-me uma lágrima. Volto meus olhos para a bailarina e a música, aos poucos, vai se perdendo. Se a dor fosse menor que a saudade, buscá-la nos confins da morte seria a solução para tanta ira.
7)
Pensei que estive completamente à deriva quando seus olhos cruzaram os meus. Não bastasse um segundo de completude infinita, te aproximaste e a trilha sonora da minha vida tomou corpo. Juntei baterista quando foste te aproximando; o baixista se juntou quando levantaste teu braço para me envolver; o guitarrista já entrou solando uma composição suave quando percebeu teu sorriso. E o vocalista... Este tomou forma quando nossos lábios finalmente se encontraram.
8)
Na sala de aula vazia, aguardando trabalho que nunca chegariam, o professor observa os rostos das pessoas que ali sentavam. "Profe, o senhor quer um biscoito?", "Eu concordo com o que tu disseste, mas será que Homero não queria só criar uma historinha para as crianças?", "Eu gostei, professor, acho que Literatura parece uma matéria diferente", "Conta outra história, por favor!", "A gente sabe que o senhor tá cansado também...". Rostos calmos, pálidos, felizes, doentes, risonhos, sonolentos. Caderno na mesa, lápis ralo, estojo não existente. Idades da minha mãe, dos meus amigos, dos avós de alguém. É. Eu preciso continuar trabalhando com eles.
9)
A guarita estava vazia. O vento nordeste acompanhava timidamente os passos do casal. Madrugada alta. Temperatura caindo devagar. E o caminhar acelerado para chegar logo.
"Não vês ninguém?", ela perguntou.
"Não! Sobe!", ele respondeu.
Dando apoio à parceira, manteve-se estanque no chão. Ela equilibrou-se em seu peito e chegou à base da pequena armação de madeira. Ele trepou pela perna dianteira, depois das tentativas inúteis de alcançar a base apenas pulando. Sentaram-se.
"Pega minha mão?", ela perguntou.
"Não.", ele respondeu.
Os pensamentos dele perderam-se com as ondas, indo e vindo numa inconstante fábrica de sonhos. Ela, boquiaberta pela reação do parceiro, não sabia o que dizer.
"Tu sabias que eu partiria", ela disse.
"Mas não tô pronto pra partir sozinho", ele resmungou.
O que ele não sabia era a vontade dela de beijá-lo. Ela esgotou-se numa expressão muda, quase calada: "eu te amo". Ele a observa, triste, confirma seu sentimento.
Anos depois, deitados na cama, domingo de manhã, relembram o episódio:
"Só teve uma coisa que eu lembrei esse tempo todo lá daquela vez..."
"O quê?"
"O 'eu te amo'."
Abraçaram-se. Adormeceram, para acordar na eternidade.
10)
"Promete que fica comigo a vida inteira?"
"Não."
"Promete que teremos filhos?"
"Não."
"Promete que nosso amor vai durar pra sempre?"
"Não."
"Promete que tu vais ser sempre assim, maravilhoso?"
"Não."
"Promete que tu não vais me deixar de lado?"
"Não."
"Promete que tu pararás de me negar tudo?"
"Não."
Ela sai da sala, revoltada. Ele pensou que poderia ser mais romântico. Deixou, porém, que seus pés no chão e suas atitudes motivassem o "sim" de todas as perguntas.
11)
Alta madrugada. Batida contínua dentro da boate. Ela dança como nunca dançou antes. Fecha os olhos, sorri, sente a vibração invadindo seu corpo. Ela está maníaca, lutando contra o próprio corpo para se manter ativa. São 3h43. Abre os olhos e vê se copo vazio. Continua dançando. Os passos cada vez mais graves, descoordenados. A música cessa, troca o estilo. Ela acorda de seu sonho e repousa os olhos sobre o copo vazio. Fazia meia hora que havia buscado. Ela não o havia bebido todo. "Maldito", pensou. Julgou ser o beberrão da mesa ao lado. Bastou ela deixar o copo sobre o parapeito e ele teria bebido tudo. "Bêbado de merda". As amigas já haviam partido e ela não tinha quem a defendesse para qualquer efeito. Lembrou dele. Se ele estivesse lá, não se preocuparia com nada. Nem em beber. "Maldito". Tê-lo perdido foi um duro golpe: carinhos, presentes, promessas, desejos e felicidades. Observa o copo e relembra as doses de uísque. "Maldita".
12)
Numa carta escrita a duras penas, ela disse que queria ser a voz da madrugada. Escutava, pelas ondas do rádio, a voz da bela locutora. Na verdade, a voz era mais bela do que a portadora, segundo seu gosto. Ouvi-la todas as noites era sua vontade, mas na carta ele quis assumir um lugar que não era seu. "Um dia serei tu", pensou. Quando anunciaram as propagandas, ele pegou o papel e começou a escrever seu roteiro: "Boa noite, senhoras e senhoras, este é o Primeira Hora, programa da sua madrugada!" - A questão é que imaginava a voz da locutora, a presença da locutora, trejeitos que não eram seus, olhares para os convidados que não eram seus, perguntas que nunca houvera pensado e que não se materializavam nos pensamentos. Quem era essa pessoa da carta afinal?
13)
Eu acho que ele gosta de mim. Estamos aqui, fim de tarde, praça, corrida, amigos, gente acampada. Acho que ele gosta de mim. Eu o olho e o vejo observando adiante. Ele vê o futuro? Não sei. Mas acho que ele gosta de mim. Eu saio de perto, corro na frente, sinto cheiros esquisitos e interessantes, paro e ele está vindo, vagarosamente. Ele vem comigo. Acho que ele gosta de mim sim. "Vem cá", ele me diz. Óbvio: corro pra ele. Mostro minha felicidade. "Espera. Toma cuidado" é o que ele me diz antes de atravessar a rua. Mas isso aqui parece tão interessante, deixa eu ver... Hmmm... Parece de menino, é muito forte e... "Vem!" - Calma, tô indo. Ele me quer semrpe por perto. Acho que ele gosta de mim. Ele insiste em levar aquele negócio nas mãos, mas eu quero ajudá-lo, eu levo pra ti. "Deixa isso comigo", ele diz. Ele sabe que eu canso de carregar, pois é pesado pra essa minha musculatura. Vejo um ocnhecido do outro lado da rua, mas me preocupo com ele. É com quem eu quero estar sempre. E acho que ele gosta de mim.
14)
Hoje estou lembrando de ti. Lembra aquele dia em que pegamos a bicicleta e pedalamos até o sol baixar? Lembra do momento em que tu nos convidaste para ver um filme e, sacaneando, disseste que só havia pornografia? Ou naquele churrasco em que rias adoidadamente de piadas que nem fundamento tinham? Lembro-me de ti antes da bebida: risadas comuns, diversões à toa, vontades de brincadeiras e conversas entusiasmadas. Remorso-me do pós-bebida: risada doentia, olhar perdido, gole atrás de gole. Onde tu ficaste, afinal? Em que lembrança escondeste teu passado? Em que estado encontra-se tua agonia? E tua felicidade, onde foi? Vejo esta foto e não mais te vejo. És apenas um espectro de uma rica lembrança, passado de um silêncio atormentado que se transformou teu dia.
15)
Depois da longa batalha, Siegfried retorna a Worms. Liudeger e Liudegast não poderiam mais ouvir seu nome. Ele, em todo o caso, queria apenas que Kriemhild falasse seu nome. Sonhava em escutar sua voz noite e dia, desde que iniciara o regresso. Günther, de olhar desconfiado, não fazia ideia de que o maior objetivo de Siegfried era amar sua irmã até o fim dos tempos - achava-o ganancioso, intimidador, até perverso. Hagen, observando a cena, apenas incentivava Günther. "Ele não é de confiança", dizia. "Veja tudo o que fez sozinho contra os Saxões". "Ele é forte. Muito forte", pensou alto. O cavaleiro do tesouro dos nibelungos, no entanto, trazia em seu coração a arma mais letal, que faria com que seus adversários se consumissem no próprio veneno: um amor casto e puro, doado apenas àquela com quem quis casar desde o início dos tempos.
16)
Temporal. Tufão, Terremoto. Eles estavam no pico do mundo, vendo tudo acontecer. Sabiam que tudo terminaria ali. "Antes que o mundo acabe", ele disse, "preciso que tu saibas de uma coisa". "Eu sei o que vais falar", ela sorriu. "Não, não te direi que meu amor por ti sempre existiu. Só que tudo que sempre fizemos parece ser banal agora. Olha o que acontece lá" - ele aponta para o horizonte: o céu também estava se destruindo. Não eram apenas o que semrpe fora visível e passível de medo ao homem. O vento soprava com força nos ouvidos de ambos. Mal ouviam-se as vozes. Um feixe negro tomava conta das nuvens, das chuvas, do mundo em si. "Aproveitamos sempre. Nada foi banal", ela disse. Ele sorriu. Completou: "E meu amor por ti sempre existirá". Deram-se as mãos e pularam, para nunca mais ouvirem falar de si. Nem de ninguém.
17)
"Conta-me uma história?", a pequena pediu.
"Deita", ele responde. "Tenho uma história pra ti."
A menina se aconchega na cama. Ajeita o travesseiro, tira os chinelos carcomidos. Ele pega mais um lençol. Dois. Apenas o que há. Coça a cabeça. Um cobertor não faria mal. Não há.
Ela se cobre com o primeiro lençol. Ele coloca o segundo. A menina, em estado contagioso de ânimo, põe-se de barriga para cima, as mãos puxando as cobertas. Dedinhos à vista. Ele sorri. Sorri um sorriso cansado, mas orgulhoso. Ela é um brinco.
"Conta agora?", ela questionou.
Ele olhou para os lados. Silêncio. De repente, uma tosse, vinda de seu quarto. Silêncio novamente. Ele resolve apagar as luzes do quarto da menina, acende uma vela. "É mais bonito dormir assim", ele diz.
"E a minha história?", ela pergunta.
"Vou te contar agora..."
E os olhos deles se perderam. Viajaram quilômetros e quilômetros. A antiga cidade. Os vizinhos falastrões. O trabalho duro e o salário parco. A invenção do mastigador. A ida pra cidade grande. O desconsolo. A dor. Ela.
"A minha história!", ela implorou.
"A tua história, meu amor... Começa depois da meia-noite."

Feliz Ano Novo aos pacientes leitores dos micro-contos e a todos que querem uma nova história em 2012! :D