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Professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Teoria da Literatura (PUCRS/2008). Especialista em Assessoria Linguística (FAPA/2011), Literatura Brasileira (PUCRS/2005) e Infanto-Juvenil (PUCRS/2006). Graduado em Letras (Unilasalle/2004). Blogueiro, leitor, gamer, aspirante a diretor de ópera, adorador de Heavy Metal, do Internacional.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Bem vindo à vida

Teu corpo consumido pela terra.
Tua voz extraída sem paz ou guerra.
Sentado ao lado de teu pai, sereno,
Hás de reconquistar teu lugar a pleno.

Levanta-te, alma pura!
Busca o teu espaço pela noite escura!

Sê bem vindo novamente
Ao local em que não há poente.
És filho de fidalgo - expulso já foste!
És filho de donzela - duro como hoste!

Levanta-te, alma pura!
Busca teu espaço pela noite escura!

Como num momento voraz,
Aplaca a gentil matéria que te espera:
Um gesto, uma fala repetirás
E uma mão se colocará: quimera.

Levanta-te, alma pura!
Busca teu espaço pela noite escura!

Sagaz sejas, bem vindo à vida,
Trépido recorte do bem humano!
A sede de teus sonhos é lida
Em contraponto à âmbito cavalariano.

Levanta-te, alma pura!
Busca teu espaço pela noite escura!

E não sejas impiedoso ou descortês,
Pois nada importa que nua praia
Ou num monte andes: desfaçatez
Seria não observares por atalaia
O espaço, o abstrato, a vida e a morte
Que só nós, caídos, sabemos sem corte.

Levanta-te, portanto:
Sois és - agora, sem pranto.
Levanta-te, levanta-te.
Não és um recorte errante.
Levanta-te, por fim:
Nada mais será afim...

- Ergue-se o corpo, abandona a tumba.
O mar ao longe o homem vê.
Antes apenas de abandonar a penumbra,
Pensa no que há na tevê.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Carta de um Chapeleiro Louco

"Faço tanta coisa
Pensando no momento de te ver
A minha casa sem você é triste
A espera arde sem me aquecer..."
Skank, Tão só 

Querida Alice,
Já não exploras o tempo como devias.
Não posso desejar-te mais do que alegrias,
pois, neste momento, estou tão saudoso.

Querida Alice,
Saibas que o nosso mundo já não é o mesmo.
Sem ti, qualquer passo dado é a esmo,
Qualquer mau agouro não passa tenebroso.

Ah, Alice, o ambiente em guerra que venceste,
A batalha com um dragão não te enlouqueceste.
Só nossa terra, de tão maravilhosa que é,
Anda tão calma, sem lutar diante de um grande pé.

Alice, sei que me lês, exatamente agora.
Sei que buscas as causas que me levam a te conhecer.
Só não faças descaso dessa carta e corrobora
Que todo teu ser está louco para me ver.

Perguntarias quem sou, bela Alice,
Mas nada mais sou do que teu imaginário,
Como disseste, em ambiente templário,
Num momento de rubor e meiguice.

Sabes, no entanto, Alice querida,
Que toda uma solene homenagem a ti
Não seria mais justa do que sofrida,
Já que nãos mais está junto a mim.

Vem, doce Alice, vem novamente,
Pois um Chapeleiro anseia em vê-la.
Não há mais momento bom que esquente
Essa vontade vã, com brilho de estrela.

Volta, Alice, e responda, enfim:
O que um corvo tem de relação
Com uma escrivaninha, é não?
Serei grato e repleto, pra mim.

Despeço-me, Alice, sem te esquecer:
És fada roubada de um local sem razão.
Nunca esqueças de um sábio dizer,
Que aqui tiveste como um lapso clarão:

"Alice é ser quem és, não aquilo
Que pensas ser", disse Absolam.
Se sempre fores como um esquilo,
Serás como algo que nunca notarão!

Adeus, Alice querida, que retornes em breve:
Sou um Chapeleiro desejoso por te ver.
Se há alguma loucura nessa fala, rouca e leve,
Considere, apenas, os sonhos para florescer.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Infalível

Manto sagrado, rubro em prata,
Que me dirás se não houver mais nada?
Que farás, de encontro à faixa,
Se em nenhum momento houver fada,
Se em algum lugar estiver estanque
O caminho sem glórias e de parada?

Num mundo tão distante e sensato,
Em que páginas e páginas de sombra
Hão de notar tudo o que está inacabado:
Serias o único a vencer a tumba,
A viajar por entre terras de um recato,
Invencível e inacabada penúmbra?

Em tuas mãos, a espada em punho;
Em teus pés, botinas de couro a limpar;
Em teu corpo, uma armadura de sonhos;
Em teu coração, uma leve fragrância do amar.
Sobra tua cabeça, sã e possuidora de coros
A te dizer: "Não te vão perdoar!"

Segue teu rumo, cavaleiro do futuro,
Que entre as brumas a avalanche está.
Teus dedos, em cortes e dores,
Há de sentir a fortuna que não acabará.
Tua vida, guerreiro, de falsos primores
Tão logo em retalhos e louvores será.

Quem, afinal, há de combater e deter
Um ser tão ignóbil, frágil e saliente?
Quem deteria a forma, a crista e o saber
De alguém que sequer sabe ser crente,
Do que se deseja de um homem de poder
Para então realizar toda a sua gente?

"Humilhado seria", responderia, incrível,
"Não serei algo tão bom quanto desejei"
Mas de forma e conteúdo, é infalível,
Sabendo que, por trás, "sei que despertei",
No que tange sua vida, é indescrítvel,
Já no que vê como um todo: "só enganei".

Reminiscência

Das claras lembranças
Que firme alcanças,
Nada mais pode ser
Como o firme entardecer.

No pífio pensamento,
Irônicas lembranças
De um vagar sem andanças
Consomem o momento.

Ira, amor, amizade:
De que valem as rosas
Se em instâncias saborosas
Não se tem a verdade?

Em relação de muito gelo
Reminiscências de cargueiro
Que muito trouxe, com zelo,
Todas as falas de um pedreiro:

Que a escola é amor, posto passado,
Em um ambiente totalmente alienado,
Em que se busca louvor, sons de prazer,
Argumentos e falas de muito saber.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Lúcifer e a súdita

Sorte a tua, humilde senhor,
Que pode me ver nessa situação.

Quem sois? O que desejais?
Há um fundo de verdade em toda a fala?

Sorte a tua, humilde senhor,
Que pode falar comigo neste estado.

Quem és? O que queres comigo?
Afinal, uma voz é esse contato imediato.

"Eu", diz a voz, "sonho contigo
A cada noite e a cada dia,
pois te vejo, a pleno e à força
como num momento de prazer:
és a força e és a dor, passando
como um encanto de Lúcifer!"

Quem és? O que queres comigo?
És alguma voz a mais do que penso?

"Trevas", resmunga a voz, "não é apenas
o caminho do mal, velha senhora...
As noites são quentes e os dias também,
Os dias são mortos e as rosas são noites
A plenos vapores em redutos sem amém."

Quem és, embriagada voz? Quem és afinal?
Um tiro no escuro é a voz imortal...

"Repense, senhora antiga", novamente diz,
"Se queres afago, aqui não terás!
Se desejas o fogo, aqui encontrarás!
A alma que aqui pena já não é de raiz,
Se um pano fora quente, o outro já não é:

Um desejo indecente e o inferno aqui é."

Ah, voz infernal, não sei quem tu és!
As causas, as laias, as trovas perdi!
De anjo sem causa e caído sem pés,
As trevas e inglórias daí já senti!

"Bem sabes", finaliza a voz, "dos céus
Eu desci. Já fui, já sou, permaneço aqui.
Ah, com almas terríveis de mausoléus
Sem donos neste ambiente vivi.
Não importa quem morra ou in extremis
Está, posto que é vida num ambiente
Distante, longe do sabor de cassis:
Há, apenas o flagelo duradouro e reluzente."

Oh, voz que te afasta, prenda-se a mim!
Não importa, sem glória, espaços não tive.
Afinal, és o espaço que se refere ao fim
E não há nada que me prenda e ative.

Só quero o sabor do novo, do claro e do belo
Que Fausto fora o único a viver e a tê-lo...

- E a voz não mais retorna, apenas conduz.

Soneto amoroso

Quando te vi, numa noite cálida e escura,
Soube que não haveria mais luar sem dor.
Afinal, seria assim a distância, impura,
Longe de tua face e de teu amor.

Logo na primeira noite, quente e profana,
Houve um espaço guardado de rica beleza:
"Hás de ter fé e amor, sabor e gana,
Pois jogar comigo é uma mágica gentileza".

Tempo passa, tempo volta, a pleno vapor.
Momento anda, caminha e transpõe
De que adianta um momento ir sem torpor?

Se lança, por fim, a longínqua caminhada
Em que num afã de grandeza se dispõe
A mais rica das cabalas: ser da bela amada.

sábado, 24 de abril de 2010

Silêncio

Silêncio!

Não escutas essa voz?
Não compreendes o que ela diz?

Silêncio! Silêncio!

O que há por aqui?
O que houve a ti?

Rebenta nas curvas um sentido grotesco,
Uma fibra, um som aleatório.
Que mais há por ti de dantesco?
Uma mensagem de algum pictório?

Silêncio!

Não vejo mais tua face.
Encontro por diversas curvas,
No corte de um enlace
A chave das mais turvas
Das noites.

Não vejo mais tua face
Em brilho e cristalina.
Apenas sonho com o enlace
De nossa áurea neblina
Às foices.

Silêncio! Uma vez mais!

Não escutas essa voz?
Quem a reconhece?

Silêncio, silêncio!

Enquanto devoro essas reminiscências,
Podes perceber quem és de verdade?
Ou, na incrível pausa da incredulidade,
Não chegas à conclusão de tais essências?

Ao declarar que o corpo jaz,
Que em minha alma tu ficas para trás,
Repouso meus olhos sobre os teus,
Busco igualar tua face aos sonhos meus.

Silencioso ambiente,
De um último colchete:
Dá-me força para continuar a ver
Tua pura alma sem ritmo de ser
Bela e constante.

Silencioso ambiente,
Em que dorme o corpo presente:
Dá-me lucidez para reviver
Um puro ar para transcender
Essa curva incessante.

Silêncio, agora.
Que mais há?

Nada, responderás.
 - No meio do caminho, haverá uma pedra!
"Poeta" - dirás!
Nunca rebaixaria à figura de quebra.

E, na noite plácida e serena,
Em que os sons já não se tornam sãos.
Veremos a alma em júbilo e plena,
Para quem esticaremos as mãos.

Ao tocá-la, de leve,
Perceberemos a sublime intensidade:
Por um lado, o prazer breve;
por outro, pura sensualidade.

E o silêncio, que reverbera esta situação,
Passará de mero confidente, amargo,
Às difíceis margens da intuição,
Oscilando entre o doce e o letargo.

Enquanto isso, só um som se instala
E se eterniza à fala:

- Silêncio! Silêncio!