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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Vendetta

Acordei de um sono profundo.
O dia clareia através da aurora,
Mas preciso saber quem sou novamente.

Você já ouviu falar de mim?
Um anjo caído que não restou em marfim?

Distante, notei as agrúrias da vida.
Próximo, continuo vendo dor - inocência perdida!
Agora retorno, crente de meus poderes.

Se não ouviu falar em mim, agora ouvirá!
Se já sabes o meu fim, meu recomeço saberá!

Empunho minhas armas, eterno sou.
Febre por vingança, alma não mais terei.
Resta-me um corpo, firme e ávido pela justiça.

Se tens ideia do que fiz, podes lamentar.
Se não julgas nem escutas, hei de o futuro forjar!

Concluo o objetivo de minha missão apenas com o que possuo.
Não saberia proceder diferentemente da forma como suo.
Afinal, há muito a se resolver num espaço de tempo escuro.

Minha vingança completa,
É dessa vida que me leva,
Deste sol que me projeta
Raios solares de trevas!

- O corpo da terra saiu.
Brotou, cresceu e viveu
Para a vida eterna, adiante,
E só lhe resta o ultrajante

Sentido de vingança.
De morte.
Consorte.
Ao norte.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ida sem bagagem

Sinto que o corpo queima cada vez mais.
Sei que um minuto passa e já não posso mais
Te ver. Sentir o teu abraço ou o fruto do carinho.

Já não vez, adorada, que o tempo passa?
Não percebes que um cálido vento nos enlaça?

De ti, percebo somente essa inconstância -
Maldita quimera que me fazes passar!
Sou de um lado frio e de outro também - leve calar!

Já não sentes, adorada, que é hora de partir?
Não percebes que nem um único minuto nos faz refletir?

Sob a doce luz da lua, esbanja-se saúde e audácia.
Só não há por quem lutar ou correr como se fosse nada,
Pois cá estou, uniforme e sem valentia, para a vida esfacelada.

Já não falas, adorada, com um ser que em ti nada brota?
Não percebes a frieza e a falta de gesticular nessa rota?

Por fim, não mais aparecerei - posto em praga o corpo eterno.
Um filme que já passou, outro que nem sonhei:
Assim é nossa vida, desde o velho tempo que te cruzei.

Termino de falar, adorada, mas não sem antes de lembrar:
A consequência da vida sem te ter é a mesma que sem te amar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A barca e a passagem

Não há tempo para esperar um novo mundo...

Seus olhos refletem na água.
Meu corpo em chamas deságua.
Tua luz em mim já não reflete
O velho mundo de festa e confete.

Que teremos se embarcamos há pouco?
Que virá senão imundas mazelas e loucos?
Oh, adorada, que em nada mais demonstra
Intenso raio de sol, que não mais me encontra.

Não há mais tempo para esperar um mundo novo...


Por entre barcas, aqui nos perguntamos:
"Ódio e Amor andarão por aqui?"
Sublime feito, imaculado registro
Responderá: "Não, não! Apenas em ti!"

Exploramos os feitos, terceiros momentos.
Esquadrias de madeira muito nobre.
"Então, seremos os novos pobres?
Teremos de burlar falsos instrumentos?"

"A música, adorada, é espírito que expande
Tudo que nos faz notar, íntegros e amantes
De sons cálidos e sentidos, criados e constantes
Da beleza que aqui nunca será revoltante!"

Não há mais tempo para esperar um mundo novo...

É só o que a voz diz: "Tempo não há!
Não há tempo! Quem sois, maldito guerreiro?
Imperas por lutar contra o precioso mosteiro,
Ígneo amante das malvadezas do que existirá!"

Tão logo a voz soou, por loucura ou descrença
Tudo se apagou. Vela, voz, velocidade intensa
Que agora permite deixar com que o céu e a terra
Terminem de sacralizar os corpos que aqui se enterra.

- Não há mais tempo para esperar um mundo novo...

domingo, 2 de maio de 2010

O chamado

O chamado que ouvi não tinha voz ou som.
Era um chamado inconsequente e irado.
Era o grunhir de rato que emitia, queimado,
A sensação de que nada daquilo vivido era bom.

Sentei à pedra e esperei: "Velha senhora",
Alguém me disse, "vá embora antes que
Seja tarde, tão tarde que não implora
A alma para ficar à beira de uma estandarte".

Num clima denso, nebuloso e maledicente,
Caminhei rumo ao lago, pronta a descer
Aos meus infortúnios de idosa descrente
De um mundo rodeado por doentes roer

Almas. Almas. As mais puras almas
De um planeta rico em metáforas e pouca paz.
De um ambiente nu aos espelho das palmas
Que os vencedores debocham ao gosto voraz.

Mergulho. Vou ao fundo e lá me vejo:
"Mundo, mundo, vasto mundo", diria o poeta.
"Velho mundo, outro mundo", digo e festejo,
"Nada mais tens do que ódio. Clara seleta!"

E vou ao fundo, bem distante de tudo.
Encontro aquilo que me torna finada:
"Ah, outro mundo, bem como no estudo,
Hás de me levar a outra cavalgada."

Adiante, a luz forte e intensa, de brilho único:
Radiante espaço em qualquer gentileza perdida:
Que me olhas, se em nada cri ou fora aludida?
Só me resta silenciar e crer em algo púnico.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Lúcifer e a súdita

Sorte a tua, humilde senhor,
Que pode me ver nessa situação.

Quem sois? O que desejais?
Há um fundo de verdade em toda a fala?

Sorte a tua, humilde senhor,
Que pode falar comigo neste estado.

Quem és? O que queres comigo?
Afinal, uma voz é esse contato imediato.

"Eu", diz a voz, "sonho contigo
A cada noite e a cada dia,
pois te vejo, a pleno e à força
como num momento de prazer:
és a força e és a dor, passando
como um encanto de Lúcifer!"

Quem és? O que queres comigo?
És alguma voz a mais do que penso?

"Trevas", resmunga a voz, "não é apenas
o caminho do mal, velha senhora...
As noites são quentes e os dias também,
Os dias são mortos e as rosas são noites
A plenos vapores em redutos sem amém."

Quem és, embriagada voz? Quem és afinal?
Um tiro no escuro é a voz imortal...

"Repense, senhora antiga", novamente diz,
"Se queres afago, aqui não terás!
Se desejas o fogo, aqui encontrarás!
A alma que aqui pena já não é de raiz,
Se um pano fora quente, o outro já não é:

Um desejo indecente e o inferno aqui é."

Ah, voz infernal, não sei quem tu és!
As causas, as laias, as trovas perdi!
De anjo sem causa e caído sem pés,
As trevas e inglórias daí já senti!

"Bem sabes", finaliza a voz, "dos céus
Eu desci. Já fui, já sou, permaneço aqui.
Ah, com almas terríveis de mausoléus
Sem donos neste ambiente vivi.
Não importa quem morra ou in extremis
Está, posto que é vida num ambiente
Distante, longe do sabor de cassis:
Há, apenas o flagelo duradouro e reluzente."

Oh, voz que te afasta, prenda-se a mim!
Não importa, sem glória, espaços não tive.
Afinal, és o espaço que se refere ao fim
E não há nada que me prenda e ative.

Só quero o sabor do novo, do claro e do belo
Que Fausto fora o único a viver e a tê-lo...

- E a voz não mais retorna, apenas conduz.