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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Quando éramos tolos...

Quando éramos tolos, presos a um pensamento mágico,
Eu sonhava contigo, em carne plena e noite serena.
Ao acordar, via-te próxima, cálida e distinta,
Mas não ouvia uma só voz de amor ou ternura.

Dizia-te: "Vem! Aproveita esse momento junto a mim!"
E o que eu via era indiferença e rancor,
Pesadelo, tormenta, distanciamento e horror,
Pois as palavras soavam como se ditas a um fim.

Quando éramos tolos, meu amor, eu te sentia aqui:
Estufando um peito cardíaco, sem qualquer sinal de dor.
Sabia que em teu coração tripudiava paixão incolor,
Que nos teus - e nos meus - sonhos fomos um croqui.

Agora que o passado se foi e meus sonhos ficaram,
Sei que num momento de ternura relembrarei de ti:
Um passo mal dado, um coração desalmado ali,
Um espaço de amor e um calor enquadrado restaram.

Quando éramos tolos, eu sabia que podia ir além.
Hoje, que deixei essa característica de lado, não mais.
Simples poema que expressou o que senti ontem,
Bendito poema que mostra que sou além de "ais"!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Árvore da Vida

Uma vida em meio aos escombros
És árvore, sensível,
Raio de luz que invade aos poucos,
Abrindo fronteiras para o invisível.
Uma cena singular.

Num feixe, luzes e troncos se envolvem;
Num canto, uma pequena garota explora sons e sinais
De um tempo que recém se iniciara, junto à aurora.
Pasmem aqueles que pensam
Que de nada vale a imagem para a menina:
A luz que cruza a árvore elabora um céu particular,
Uma imagem nítida da cena infantil:
Sois terra, calor e força;
És árvore, mas a minha imagem da vida.

Imagem que se distrai
Entre os assombros da noite,
Amor, que fica e vai
Ascendendo, atracando ao porto.
Aquela arte de antes,
Aurora da vida,
Ficará sempre em meu peito
Palpitando, rente às feridas.

Co-criado por Natália Galvão e Lucas de Melo Bonez

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Um espelho para Narciso

Vês, Narciso, que imagem pura e clara
Resplandece da cristalina água?
Sentes o furor da paixão que ficara
Preso à fluidez que o tempo enxágua?

Há tempos não enxergas mais que a própria imagem.
Não sabes o quão belo é o que há por dentro do corpo.
Insanas ideias paradisíacas consigo, culto e vertigem
Num mundo cruel de espaço, de curvas, mal torpo.

O que há dentro de nós, Narciso, senão os sentidos?
Que mais há que aquilo não visível aos teus olhos?
Talvez num curto espaço descubras, benditos

Que a natureza humana é corpo e se resume a pó.
Que um dia terás no corpo o objeto falível, fraco,
E que te restará apenas aquilo que lhe é opaco.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Perguntas

Eu te pergunto:
"Tu vens?"
"Não hesito",
é tua resposta.

Em meio a um milhão de flores,
Vejo teus olhos brilharem em gozo profundo:
Estás a um passo de encontrar teu caminho,
Um passo dado em meio ao nada e ao mundo.

Eu te pergunto:
"Tu queres?"
"Anseio",
é tua resposta.

Como num conto de fadas,
Caminhas como uma Alice sem asas
Em busca de tua contemplação,
Ou de um mágico alicerce para casas.

Eu te pergunto:
"O que queres?"
"Não sei",
é tua resposta.

Num altar finito de ideias,
Mas múltiplo em capacidades,
Regozijas receios, atacas contrariedades -
Só vejo a ti em meio às parcas possibilidades.

Eu te pergunto:
"Quem sois que me buscas?"
"Uma alma cálida e serena",
é o que pensas.

As palavras não saem,
revoltam-se contra o proferimento
E lá elas ficam, apagadas ou engasgadas,
Não ditas pelas sombras de todos os receios.

Eu te pergunto:
"Agora, o que faço?"
Silêncio - eis a resposta:
O que pensas e o que falas.

Quem eu seria em meio ao não dito?
Qual abraço seria a contemplação do sentido?
Que busca, que alicerce, que palavra
Há de esgotar a agonia de um bendito?

Não mais pergunto.
Respostas não há.
Há um carinho sincero,
Que clama por um "ah"...

sábado, 4 de junho de 2011

Anjo-luz

Num espaço vazio, numa caixa de presente,
Na hora da virada, no momento do desastre,
Nessa vida de alegrias, noutra feita de tristezas,
Uma luz é vista ao fundo.

Num momento passado, na hora do presente,
Na vida de viajante, ou na criada por um mestre,
Quando em desejos, ora fugazes ora afáveis,
A luz é cada passo mais próxima.

Numa tríade de amizade, desejo e conquista,
Numa dor convertida em prazer,
Com aqueles sinais de complacência permanente,
A luz toma forma.

De um claro momento, de uma estúpida fala,
De um passado memorável, de um presente conflitante,
Um futuro perfeito que está por vir:
A luz é um anjo.

Um anjo branco, clarividente, incandescente.
Cega-me vê-lo, me consome a vontade
De tê-lo para realizá-lo, dia após dia.
O anjo não cairá em desgraça, pois me salvará.

À luz do dia, um anjo de encantos profundos.
Ao cair da noite, uma luz que perdura além do mundo.
Que anjo é esse que me tenta e que me esquenta?
Que luz é essa que me faz perder o chão?

É a luz do mundo, exclusiva pra mim.
É a alma que me carrega e que me move.
É o sonho que desabrocha a cada aproximação.
É minha vida, minha terra; meu anseio, minha perdição.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ilha bela


Em local isolado, lá ficava o elemento:
“Ser ou não ser, eis o que pensar!”
Pensara no poeta, mas não falara atento.

Isolado, perdido na ilha,
O ser lá estava, calmo a falar:
“Quero todo o mundo, até tua filha!”

Logo pensou que não deveria pedir
Nada. Seria um devaneio, calar
Seria melhor, mas resolvera atrair

A ira. Nuvens fecham, calado o tempo.
Paira A voz, sobre o luar ao mar:
“Que pedes assim, como tal elemento?”

“Quero tua filha, ó Deus!”, bradou o homem.
“Buscais por vias erradas, bravo ser,
Se quiseres além, falarás do que deve aquém.”

Silenciado o homem, repensou seus atos.
Surgiu em meio a tudo um único vulto.
A bela, a amada que desejara por retratos.

Ah, ilha bela, possuidora de alentos,
Salvaste uma alma de puros sonhos
Apenas para manter seus lineamentos.

Quem seria a partir de agora?
Que buscaria sem pedir mais nada?
Viveria apenas da grande aurora?

Respostas ninguém traria.
Nem numa passagem meramente isolada.
De resto, apenas o vento ouviria.