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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Entreato

Eu, seguidor de ti.
Tu, seguidor de mim.
Um passo em falso
E o holofote nos ilumina.

Num resquício de espaço,
Um céu de brilho intenso e raro.
No nosso mesmo e caro
Pudor, em paixão eu te laço.

Segue-me à linha, aproxima-se.
Toco-te, puxo-te e te beijo.
Num entreato ardente não cesse
Nenhuma vontade nem algum lampejo.

Eu, seguidor de mim,
Encontro-me em ti.
Tu, seguidor de ti,
Completa-te em mim.

Num entreato de espaço aberto,
Tu, seguidor de mim, alçou-me.
Num jogo de mergulhos, num aprume,
Vejo-me em teu calor, sempre, ao certo.

Sou seguidor de ti.
És seguidor de mim.
Não há entreato em que não se observe,
Que somos ato de um teatro eterno.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Um carro

O sonho de todo menino é ter um carro.
"Quero dirigir!", diz ao pai.
"És pequeno!", ele responde, não raro,
"Quando maior, pedirás um 'não apelai!'".

Carro de duas ou quatro portas.
Um ar condicionado, amplificadores.
Não há no mundo um desejo de mortas
E más jornadas que substitua os motores.

Num sonho breu, o menino viu uma imagem:
O carro, arrojado tal qual sua vontade, iluminado:
Havia algo mais do que um mero vestígio corado.
Era um ser de alva face, de corpo em vertigem.

O carro, então, passou a ser apenas um carro:
Desde que o menino conheceu a imagem do carinho,
Nenhum objeto se tornou tão claro quanto o amarro
De dois corações: o meu e o teu, unidos num ninho.

domingo, 31 de julho de 2011

Fusão

Saio à noite.
Um raio de luz me surpreende.
Busco saber o que há,
Mas não há palavra que diga.

Saí à noite.
Surpreendi-me contigo.
Busco te ver logo mais,
Mas só há desejo para lá.

Sai à noite.
És raio que me faz surpreender.
Buscas te encontrar junto a mim,
Mas ainda obstáculo há de ter.

Saímos à noite.
Somos fusão de luz e desejo,
Buscamos espaço em meio ao ensejo
De uma busca incomum e de deleite.

Somos a noite.
Somos o dia.
Somos a fusão da energia,
Que há de nos trazer regalia.

Sou a tua noite.
Tu és o meu dia.
Quem pense que somos em parte,
Não sabe que somos alegria.

És minha noite.
Sou o teu dia.
Que do alento exala e foi-te,
Como num gesto de sabedoria.

Sou a luz,
És a escuridão.
Sois ponto de interrogação
Em todas as falas de tua cruz.

Sou a escuridão,
És minha luz.
Sou a bicada de uma avestruz
No centro de um mundo zangão.

Fusão é o que somos.
Benditos sejamos em longos sonos.
Hei de te ter em ambiente ardente,
Para que de paixão eu morra incandescente.